• Black Facebook Icon
  • Black Instagram Icon
  • Black Pinterest Icon
0

Astronomia na antiguidade: a misteriosa Máquina de Anticítera

28.12.2017

De fato o passado nos reserva muitas surpresas! E a Máquina de Anticítera (+/- 100 a.C.) é uma delas, por ser o tipo de artefato chamado na arqueologia de "objeto fora de seu tempo", ao se destacar por sua complexidade e improbabilidade. Conheça agora um pouco mais sobre este famoso computador mecânico de Antiguidade.   

 

 

É mesmo desconcertante pensar que alguém, em algum lugar da Grécia antiga, fez um computador mecânico! Mas, é exatamente disso que se trata a Máquina de Anticítera (ou Mecanismo de Antikythera): do mais antigo mecanismo de engrenagens do mundo, feito especialmente para realizar cálculos específicos. Ou seja, ela preenche todos os requisitos necessários para ser caracterizada como o primeiro computador analógico da história. E tudo isso há impressionantes 2.000 anos!

 

Através dos cálculos que realiza, esta antiga máquina astronômica é capaz de acusar não só a posição exata dos 7 planetas conhecidos na Antiguidade, como também pode prever os eclipses que ocorrerão. Ela também funciona como um almanaque para a visualização de estrelas e ainda é um calendário luni-solar! Imagine só que os primeiros registros históricos de uma tecnologia no mínimo semelhante a esta vieram no século XVI, cerca de 1.500 anos depois, quando apareceram os primeiros relógios mecânicos astronômicos.

 

A descoberta, esquecimento e redescoberta da Máquina de Anticítera

 

Foi mesmo sem querer que, por volta do ano de 1900, alguns mergulhadores que procuravam esponjas do mar perto da ilha grega de Anticítera avistaram, não a sua desejada pesca, mas um antigo navio bem no fundo do mar Egeu. Como o naufrágio havia acontecido há milhares de anos, o navio estava repleto de valiosas relíquias históricas da antiga civilização grega, o que levou os mergulhadores a chamar imediatamente os peritos do Museu Arqueológico Nacional de Atenas para avaliar os destroços.


Durante vários meses os peritos resgataram um incalculável tesouro de esculturas e jóias e logo procederam à limpeza, registro e exposição dos achados. E foi no meio a essas valiosíssimas peças que foi resgatado um enigmático artefato de bronze do qual ninguém conhecia a função. Como a peça estava em pedaços e bastante enferrujada, ela veio a passar desapercebida e esquecida nos arquivos do museu (confira na imagem abaixo o estado das peças originais).

 

 

Passaram se alguns anos até que o diretor do museu, Valerios Stais, redescobrisse os misteriosos restos daquele objeto e, uma vez eliminados os depósitos de calcário, notou diversos signos e pequenas rodas dentadas de bronze que lembravam o mecanismo de um relógio. O também arqueólogo pensou que se tratava de um relógio antigo, mas os seus colegas rejeitaram a ideia porque parecia fantasiosa demais (ah, se eles soubessem!).

 

Foi somente em 1958 que a Sociedade Filosófica Americana decidiu finalmente encarregar o físico britânico Derek de Solla Price de examinar os objetos ainda não classificados. E foi ele quem percebeu que aquilo se tratava de um instrumento raríssimo e muito improvável, pois era nada mais nada menos do que uma calculadora capaz de determinar e indicar os movimentos do Sol, da Lua e talvez até dos planetas! O antigo mecanismo era extremamente complexo, apresentando um sistema de rodas dentadas no interior e mostradores com símbolos gravados no exterior, que  claramente indicavam a finalidade astronômica da máquina. 

 

Em 2008, o uso de um tomógrafo fabricado especialmente para ler as minúsculas letras inscritas (que tem dois milímetros de altura), permitiu decifrar um total de 3.400 símbolos gregos e ajudou a compreender quais são as partes do mecanismo que faltam, possibilitando assim a criação de uma réplica muito próxima ao modelo original.

 

Mas, como ela funcionava exatamente?

 

Bom, o dispositivo estava inicialmente dentro de uma caixa de madeira com cerca de 33 cm de altura, 18 cm de largura e 8 cm de profundidade, mas esta se desintegrou com a ação da água e do tempo (na réplica que se encontra exposta no Museu Arqueológico Nacional de Atenas a caixa é em acrílico, para que possamos ver o mecanismo interior). Dentro da caixa, havia uma combinação de rodas dentadas que funcionava como uma engrenagem diferencial (até então, o primeiro registro de utilização deste tipo de engrenagem havia sido em 1896!) e na parte exterior estavam os mostradores e um botão (ou uma espécie de manivela), tudo isso repleto com inscrições. 

 

A imagem a seguir representa como seria a vista frontal da máquina (do lado esquerdo) e um esquema do interior do dispositivo (ao lado direito), onde também é possível ver a face traseira do mecanismo.

 

 

O mostrador dianteiro era circular e tinha duas escalas concêntricas, sendo que a primeira indicava o calendário egípcio, e a segunda continha os doze signos do Zodíaco. Desse modo, quando os ponteiros se moviam ao longo destes círculos, mostravam a data e a posição exata dos planetas conhecidos (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno) em relação às constelações do Zodíaco, o que possibilitava também saber quando certas estrelas estariam visíveis e quando se esconderiam de acordo com as diferentes épocas do ano.

 

Já na parte de trás havia dois mostradores grandes: um deles continha o Calendário Metônico, com os 235 meses lunares do ciclo (equivalente a 19 anos solares) e o outro consistia no Ciclo de Saros, que indicava o dia, a hora e a cor dos eclipses lunares. E em um pequeno mostrador secundário, os números 8, 16 e 0 apareciam, permitindo corrigir o ciclo (adicionando 8 ou 16 horas, conforme apropriado).

 

Para fazer a máquina funcionar, bastava utilizar o botão lateral para ajustar as engrenagens, que por sua vez ativavam os ponteiros do mostrador dianteiro. Assim, ao definir as posições planetárias em determinado momento, o dia e hora exata dos eclipses podiam ser previstos com até 19 anos de antecedência, bem como o signo em que estariam o Sol, a Lua e os planetas, além da visibilidade das constelações e as fases da Lua (isso sim é que é app de Astrologia!).

 

Sobre a origem do primeiro computador analógico do mundo

 

A origem exata da máquina de Anticítera ainda é incerta, porém alguns estudiosos acreditam que o proprietário ou o fabricante do mecanismo era de uma cidade coríntia (possivelmente das capitais Corinto ou Siracusa), visto que os nomes dos meses que aparecem no mostrador frontal estão escritos no dialeto coríntio. Supondo também que ele tenha sido construído em algum momento entre 150 e 100 a.C., (data provável do naufrágio do navio grego) é possível que ele tenha sido feito em Corinto antes de sua destruição pelo exército romano, porém há uma forte tendência para acreditar que ele vem de Siracusa, a cidade de Arquimedes (287 - 212 a.C), um dos principais cientistas da Antiguidade Clássica.

 

A razão para acreditar nesta teoria é que a construção de mecanismos deste tipo teria exigido um conhecimento sofisticado e por ser tão excepcional e preciso (seu erro estimado é de 0.0002 por ano), só poderia ter sido construído por alguém tão brilhante como o grande físico, astrônomo e matemático grego. Além disso, mesmo que Arquimedes tenha morrido em 212 a.C., muito antes do naufrágio em Anticítera, existem registros de que ele chegou a criar dispositivos mecânicos que ilustravam eventos astronômicos, cujas descrições muito se assemelham à máquina de Anticítera.

 

Um famoso relato foi feito pelo grande escritor e filósofo Cícero (106–43 a.C), que menciona brevemente em seu diálogo De re publica, que após a captura de Arquimedes em Siracusa, o general Marco Cláudio Marcelo teria levado a Roma dois de seus mecanismos usados como ferramentas para estudos astronômicos, que mostravam os movimentos do Sol, da Lua e dos cinco planetas. Também Pappus de Alexandria disse que Arquimedes escreveu um manuscrito (agora perdido) sobre a construção destes mecanismos chamado Sobre a Construção de Esferas

 

De qualquer forma, temos que admitir que a sua origem continua um mistério sobre o qual podemos apenas especular, mas o fato é que o mecanismo Anticítera não é apenas uma maravilha da engenharia - ele pode revolucionar muito do que foi dado como certeza sobre nossa visão do Universo durante séculos. Imagine só você que existia um computador mecânico astronômico antes mesmo de Cristo colocar os pés na face da Terra! 

 

É ou não é emocionante?

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

 POSTS RELACIONADOS

Please reload

SEGUE A GENTE NO FACEBOOK

ÚLTIMOS POSTS

Please reload